Batalha dos Aflitos: Descanse em Paz



Quando Galatto defendeu o pênalti cobrado por Ademar, naquela tarde quente de 2005, o mundo gremista ficou subitamente fora de controle. Foi um momento de rara dramaticidade, cujos detalhes já foram tão repetidos em prosa, verso, livro e DVDs que se torna desnecessário que enumeremos aqui, uma vez mais, as circunstâncias daquele jogo inusitado. Bastará, para todos os efeitos, que lembremos a bola sendo defendida por Galatto com a perna esquerda para entendermos que, naquele instante sem sentido, a visão de mundo de milhões de gremistas mundo afora ganhou uma nova dimensão. E que, quando Anderson consolidou o inverossímil com um gol que até hoje não tem explicação no futebol ou na ciência, a concepção toda de ser gremista sofreu uma reviravolta profunda para boa parte dos tricolores – uma mudança que, quatro anos depois, ainda apresenta seus efeitos, e está longe de ser plenamente compreendida. 


A noção de conquistas épicas, evidentemente, já existia para o Grêmio muito antes da Batalha dos Aflitos. Baltazar perdendo pênalti em um jogo para fazer o gol do título no outro, o caldeirão de La Plata, o gol de César num cruzamento surreal de Renato, China mancando durante a prorrogação em Tóquio, Dinho e seus carrinhos e voadoras, os jogos contra o Palmeiras na segunda metade dos anos 90 – são numerosos os exemplos de que a dificuldade, ao seu modo, é companheira inseparável das conquistas gremistas. Do mesmo modo, seria leviano atribuir toda a mudança no comportamento da torcida nos últimos anos a essa única partida em Recife – basta lembrarmos que, no ano seguinte aos Aflitos, o Internacional conquistou os dois maiores títulos de sua história para entendermos que é bem mais que a mística daquela partida da Série B que atualmente move o inconsciente coletivo do tricolor.


Mas é fato que a torcida gremista mudou nesses últimos quatro anos. Algo especialmente perceptível nos mais jovens, mas que de certo modo afeta todos, mesmo os que já eram bem crescidos quando Pedro Ernesto gritou “Inacreditável!” e Ruy Carlos Ostermann ficou tão surpreso que chegou a deixar cair o microfone na cabine. Enraizou-se, na cabeça dos torcedores nascentes em especial, a ideia de que o Grêmio é uma espécie de jamanta futebolística: precisa passar por cima sem perdão, atropelando tudo e todos na base da raça, do coração, da cusparada na cara e do pontapé na canela. Consolidaram-se estereótipos: o Grêmio é o “exército espartano” com “alma castelhana”, jogadores com a “cara do Grêmio” precisam ser basicamente máquinas de dar carrinho e/ou peitar adversários, e qualquer demonstração maior de capacidade técnica ou de requinte tático já é “frescura” de quem quer “acariocar” a imagem guerreira do clube mais raçudo e corajoso do Brasil.


Para as parcelas mais jovens da torcida gremista, assistir um jogo sentado na arquibancada ou nas sociais é um crime digno de fuzilamento. O torcedor de verdade, aquele digno do manto sagrado que veste, tem que cantar o tempo todo e pular como se não houvesse amanhã, mesmo que isso signifique não dar a mínima atenção para o que acontece dentro do campo. De preferência atrás da goleira, integrado às hostes da Geral do Grêmio, uma torcida que nem existia antes de 2005 e que hoje é quase um poder paralelo no Olímpico. Os gols gremistas, o torcedor de verdade saberá que ocorreram quando for engolido pela avalanche. Ou então, o outro extremo: nada será bom se a vitória não for épica, se o adversário não for subjugado até a humilhação, se os atletas não suarem sangue e se o treinador não sofrer um enfarto do miocárdio a cada partida de tanto esgoelar-se à beira do gramado. Não existe clemência – afinal, o Grêmio é grande, o Grêmio é guerreiro, o Grêmio é Imortal e ganha na marra, e se não tem a “cara do Grêmio” o profissional tem que ser perseguido até sumir do Olímpico, pelo bem de nossa história. 


A Batalha dos Aflitos criou uma espécie de névoa, que cobre a visão de boa parte da torcida. E circunstâncias como a série de vitórias heróicas e sufocantes na Libertadores 2007 só ajudaram a deixá-la ainda mais espessa. Esquecem muitos que o Grêmio, esse time de raça e alma castelhana, já ganhou títulos com Telê Santana e Enio Andrade, treinadores que estavam a quilômetros do estereótipo de um Luis Felipe Scolari. A grande qualidade técnica e a enorme disciplina tática de nossos times vencedores são esquecidas, e só se valoriza a força, o futebol viril, o empurrão e a explosão de raiva ou indignação. Tanta foi a emoção do ascenso de 2005 que muitos torcedores assumem que agora tem que ser tudo daquele jeito, tudo extremamente sofrido, tudo conseguido na base do sacrifício sobre-humano e da total abnegação. Pegou-se uma parcela do espírito gremista – que, convenhamos, é mais ou menos importante para qualquer clube que queira ser vitorioso – e elevou-se esse aspecto ao nível de fórmula mágica. Se perdemos, independente das circunstâncias, é porque faltou raça; se ganhamos, mesmo arrastando as pernas e sem jogar absolutamente nada, é porque a raça está de volta. Derrotas, mesmo as mais corajosas e meritórias, são inaceitáveis – afinal, o Tricolor é Imortal, e não pode jamais perder para ninguém. Tudo tem que ser superlativo, dramático ao extremo, e arraigado a um formato de conquista que, por espetacular que foi, passa a ser visto como único. Simplificando e generalizando, a torcida gremista ficou cega. E chata. Muito chata.


É bem possível que tudo isso seja, na verdade, reflexo de um momento difícil que vivemos e que de certo modo ainda está presente. Que as coisas ainda estejam se acomodando, e que em breve voltemos a encontrar o equilíbrio, verdadeiro condutor de tantas glórias e conquistas. Que, com o tempo, se entenda que esses quatro anos que se passaram desde a última Batalha foram anos de retomada, de um clube reencontrando sua grandeza e sua história, e não de derrota e falta de espírito gremista, como alguns parecem acreditar com fanatismo já que os títulos não vieram. Que se potencialize a Batalha dos Aflitos pelo que há nela de bom – um renascimento no momento mais terrível, uma reafirmação do Grêmio como clube grande e que nunca se entrega, um símbolo fortíssimo para uma instituição que busca o reencontro consigo mesma e com as conquistas do futuro. Que o Imortal Tricolor, cantado por Lupicínio no hino, seja o que de fato tem que ser – a descrição de um time que luta sempre, que coleciona títulos e que seguirá sendo grande enquanto o mundo for mundo e o futebol for futebol. Que se entenda que a cara do Grêmio é a cara de um time que joga para vencer, com profissionais capazes de disputar títulos e conquistá-los sempre que possível, quantas mais vezes melhor. E que se esqueça essas bobagens vazias, que se deixe para trás essa fascinação pelo drama, essa obsessão por ser mais raçudo e mais viril e mais corajoso e mais barulhento do que os outros. Que seja abandonada a fantasia que já está virando prisão, e que voltemos a apreciar a realidade, que sempre foi tão melhor que a ficção. E que já nos deu muitos títulos.


Viva a Batalha dos Aflitos. E que descanse eternamente no passado das grandes glórias, na recordação alegre e emocionada que nunca se apaga e nunca fica menor com o passar dos anos. Que fique por lá, e nos deixe em paz.


Foto: Galatto, mais do que um herói, quase um fantasma (Ricardo Duarte/RBS).

Comentários

zeh nascimento disse…
GALATTO ETERNO!

valeu bruno carvalho
valeu ademar
valeu kuki
valeu batata

DIBLA ELES TUDO, ANDERSHOW.

FORA NELSINHO!
zeh nascimento disse…
natusch e eu fizemos uma SÉRIA REFLEXÃO sobre os 10 anos que separam duas situações.

só pra ilustrar, dois times da ERA MODERNA do futebol tricolor:

1995
danrlei; arce, rivarola, adilson, roger; dinho, goiano, carlos miguel, arilson; paulo nunes, jardel.

2005
galatto; PATRÍCIO, domingos, pereira, ESCALONA; sandro goiano, NUNES, marcelo oliveira, marcel; ricardinho, LIPATIN.

tirem suas próprias conclusões.
Lourenço disse…
Salve, salve. A glória é importante, a sobrevivência é mais. Que nunca seja esquecido, como chegamos e como saímos de lá, para que nunca tenha que se repetir. Até porque não vai mesmo.


Mas eu ainda acho que não deveria ter deixado bater aquele pênalti.
augusto. disse…
Perfeito o texto.

Discordo apenas em dois momentos: atletas DEVEM suar sangue e derrotas são SEMPRE inaceitáveis.
Lourenço disse…
MENOS CONTRA O FLAMENGO, DIA 6.
Vicente Fonseca disse…
Concordo com absolutamente tudo. O equilíbrio é tudo mesmo. O fato é que a torcida gremista sempre valorizou mais esse lado aguerrido do time nas conquistas que a qualidade técnica. Não por acaso, Oberdan é mais lembrado que Éder pelo título de 1977, por exemplo.

Acho que há derrotas aceitáveis, Augusto. O 5 a 1 do Palmeiras em 1995 e o 3 a 1 do Santos em 2007 foram as duas melhores derrotas que já vi do Grêmio. hdhsdsd
Chico disse…
"vocês acham que ganharam este título, desta forma,
porque vocês jogam bem, são bons atletas?
não é isso merda nehuma! é porque vocês tem caráter!"

Paulo Odone 26/11/2005
Vicente Fonseca disse…
Naquele caso sim, Chico. Mas agora precisamos de algo mais que aquilo. Caráter e atitude são sempre importantes, que fique bem claro.
Chico disse…
E essa lista de técnicos pro GRÊMIO? Só pode ser palhaçada!

FORA DUDA, FORA MEIRA!
AUTUORI JÁ FOI! SÓ FALTAM VOCÊS!
Vicente Fonseca disse…
Fred me mandou uma mensagem sobre NELSINHO. Por pouco a manchete de ZH da quinta não foi "Gaúcho infarta em plena Avenida Paulista".
Lourenço disse…
Bah, a simpatia que eu tenho pela idéia de termos Dorival ou Silas aqui é pela completa ausência de técnicos gaúchos pedindo passagem. O último grande título que conseguimos com um "estrangeiro" no comando foi em 1983. O Igor teve que ressuscitar Telê e Ênio para defender que é possível.

P.S.: quem lembrar do Evaristo em 1997 é brincadeira.
Vicente Fonseca disse…
O Espinosa é gaúcho, Lourenço. E também prefiro técnicos daqui.
natusch disse…
É esse o tom que quis dar ao texto: o de que raça, caráter, dedicação, tudo isso é muito importante - mas não dá para querer que isso substitua o bom futebol, a qualidade técnica e a formatação tática. Nos tornamos quase escravos dessa coisa de ganhar na marra, quando no fundo a Batalha dos Aflitos foi o capítulo final de uma grande aula do que NÃO deve fazer um time de ponta do Brasil.

E citar Telê e Enio foi mais no sentido de lembrar treinadores mais "acadêmicos" que se deram bem por aqui. Podia ter citado também o Tite, mas aí eu ia apanhar, hehehe. E o Evaristo, confesso, nem me ocorreu =P

No mais, dada a PENÚRIA de bons nomes (quase enfarto junto com o Vicente na hora da msg falando de Nelsinho), Silas acaba sendo uma opção engolível. Mas ainda prefiro o Dorival, desde que não queira ficar milionário às nossas custas. Se bem que no fundo o que eu queria MESMO é que o Autuori ficasse, prontofalei.
Vicente Fonseca disse…
Como falei agora com o Faraon, direção boa é a que enrola na hora de falar mas age firme. Essa se enrola na hora de agir e fala firme.
natusch disse…
E X A T O

Pelaipe, que nem era tuuuuudo isso, dava uma SURRA de FIVELA DE CINTO em Meira. E tenho dito!
Lourenço Fonseca disse…
Cara, tira o Duda e o Meira, bota o Paixão de preparador e até o Bagé pode ser o técnico.